Tuesday, August 08, 2006

Almas urbanas: percepções...

MARIA
Eu sou Maria. Mas não sou qualquer Maria... Sou Maria Gorete de Jesus Alcântara. Meu nome de batismo vai até Jesus. Mas acho que ele está tão longe. Alcântara é do meu marido. Oficial do exército, sabe. Lindo, formal, durão. Mas ele morreu, há dez anos.

HELENA
Meu nome? Helena. Leninha para os amigos e Lena Boca de Veludo, só para quem é muito, muito íntimo. Fui criada em orfanato dos quatro aos treze anos. Uns dizem que sou o cão chupando manga, que meto medo em qualquer um. Outros dizem que sou um anjo. Engraçado, né? Todo mundo tem uma opinião sobre mim. Menos eu mesma.

LÚCIA
Senhoras e senhores, meu nome é Lúcia Medeiros. Este avião possui seis saídas de emergência, sendo duas na região frontal, duas no meio do avião e duas na parte posterior do avião.

MARIA
Eu gostava de cuidar das coisas de casa. Cuidado com esse prato, menina, não vê que é porcelana chinesa! Olha, se quebrar vai custar um ano do seu salário! Um ano! Presta atenção, sua doméstica incompetente! Meus Deuses, não se fazem mais empregadas como antes. Elas não têm cuidado com as coisas da gente. Nem com a porcelana chinesa que ganhei do Alcântara.

HELENA
Fugi do orfanato aos treze anos, cansada dos maus-tratos, dos abusos de poder, abusos que marcaram meu o corpo e minha alma, mas já não era mais criança. Saí fugida, levando na mochila de jeans surrado e desbotado alguns sonhos e poucas coisas que eu roubei do orfanato pra mim: uma xícara e um pires azul, de porcelana vagabunda. Linda. E uma foto do Amado Batista que roubei do quarto da madre que cuidava da gente.

MARIA
Ganhei a porcelana do Alcântara quando completamos 10 anos de casados. Um jogo completo. Nossa casa é linda, quartos amplos, portas largas, uma casa arejada. Mas eu não me sentia bem, faltava alguma coisa. Eu tinha, eu tinha um vazio por dentro, um vazio profundo. Um aperto no peito, uma falta de ar. Meu Deus, o ar me faltava.

LÚCIA
Senhoras e senhores, se acontecer a despressurização da cabine do avião máscaras de oxigênio cairão do compartimento superior de cada poltrona. Utilizem a máscara desta maneira, depois de colocada a sua máscara, ajude a pessoa que está do seu lado a colocar a máscara dela.

HELENA
Odeio pressão, odeio ser pressionada, odeio ter gente por perto dizendo o que eu tenho que fazer. Odiava aquele orfanato. Aquelas madres que cuidavam do orfanato, que cuidavam da gente. Aquilo, aquilo me sufocava. E pouco antes da gente pular o muro, eu e mais duas amigas espalhamos querosene por todo o alojamento das madres. E de cima do muro toquei fogo na porcaria do quartinho delas. Aquilo era um inferno mesmo. Só precisava esquentar um pouquinho.

MARIA
Eu e o Alcântara tivemos três filhos. É. Três filhos lindos. Marco Antonio, Kátia Daniela e Flávia Roberta.

HELENA
Eu? Eu fiz quatro abortos. Não sou mulher pra ter filho não. Não posso fazer com um filho meu aquilo que fizeram comigo, deixar por aí, que nem bicho. A vida só faz cachorrada com a gente. Mas ajudo uma amiga minha, a Soraia, ajudo a criar a filha dela. A menina é uma princesinha! Linda. Parece uma porcelana. Eu sou madrinha dela. O pai? O pai morreu com um pipoco na cabeça depois de enfrentar a polícia lá na favela do Canta Sapo.

LÚCIA
O que deseja, senhor? Se tenho filhos? Não senhor, isso não posso responder. Por favor, senhor, apenas respondo questões técnicas sobre o avião e os serviços de bordo. Por favor, não insista.

1 Comments:

Anonymous Sandro Fortunato said...

Primeirão! Primeirão! Primeirão!

9:12 PM  

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